Chama-se Palavras da Memória o livro do professor Alberto Alves que será apresentado na Biblioteca Municipal de Fafe na noite de 05 de julho, pelas 21h30, numa sessão promovida pelo município e pela editora Labirinto. A obra será apresentada pelo escritor e investigador Artur Ferreira Coimbra, que assina o prefácio. Palavras da Memória integra duas dezenas e meia de textos ficcionais, ou memorialísticos, de temáticas diversas, situados em tempos diferentes e escritos igualmente em épocas desiguais. Alberto Joaquim Costa Alves nasceu em Fafe em 15 de Abril de 1944. Concluiu o Curso Geral dos Liceus (5º ano) no Colégio Municipal de Fafe, ingressando na Escola do Magistério Primário de Braga, onde obteve formação de professor do ensino primário (1963). Em Março de 1993 concluiu na Escola Superior de Educação de Fafe o Curso de Estudos Superiores Especializados em Administração Escolar.A nível profissional, exerceu funções em diversas escolas do ensino básico (Fafe e Celorico de Basto). Desempenhou o cargo de Delegado Escolar durante 17 anos (1982-1999). Foi agraciado com a Medalha de Prata de Mérito Concelhio, entregue em 5 de Outubro de 1999.Foi professor da cadeira de Gestão e Administração Escolar na Escola Superior de Educação de Fafe.Com pouco mais de 10 anos, iniciou uma colaboração no jornal local Povo de Fafe. Posteriormente, colaborou noutros órgãos da imprensa regional, nomeadamente, no Notícias de Fafe, Vieira do Minho, Nordeste de Bragança e Diário do Minho. Foi sócio fundador do jornal Correio de Fafe, tendo sido o seu primeiro director. Criou o Momento (In)formativo, boletim do Rotary Club de Fafe. Foi o director do semanário Justiça de Fafe, III série. Também tem colaborado nos últimos anos no Povo de Fafe. Foi funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian, exercendo funções de encarregado da Biblioteca Fixa n.º 34, em Fafe, durante 26 anos. De 1991 a 1997, foi eleito membro da Assembleia Municipal, pelo PSD, tendo sido Vereador da Câmara Municipal no final do mandato de 1991/94 e eleito para 1997/2001, na mesma lista partidária. Tem colaboração na imprensa regional e nas publicações da responsabilidade do Núcleo de Artes e Letras de Fafe, em prosa e em verso. Em 2007, esteve ligado à criação da Universidade Sénior do Rotary Clube de Fafe, da qual tem sido o “reitor” desde essa altura. Em 2009 foi eleito secretário da Direcção dos Bombeiros Voluntários de Fafe. É autor do livro Retratos do Tempo e da Memória – Grupo Cultural e Recreativo Nun’Álvares (2010).
quinta-feira, 28 de junho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
“Tomé” – livro para a infância de Sónia Silva apresentado quinta-feira na Biblioteca Municipal de Fafe
“Tomé” é a designação do livro para a infância da autoria de Sónia Micaela Noval Silva que é apresentado esta quinta-feira, 28 de junho, no auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, pelas 21h30.
A apresentação da obra está a cargo de Emília Almeida que, no prefácio, refere que, “com recurso a uma linguagem textual leve, mas apelativa, mobilizadora de sentimentos, sentidos e emoções, a autora do conto intitulado “Tomé”, Sónia Silva, dá-nos a possibilidade, através da leitura do seu texto, de abrirmos o nosso entendimento à infinita torrente de sensações e múltiplas dimensões da componente psicológica da vida interior de uma criança”.
Emília Almeida considera o livro de estreia de Sónia Silva “autêntico hino de amor, modelo de confiança, singelo exemplo de respeito, e genuíno testemunho de carinho e simbólico ato de celebração condigna da dignidade que deve enformar o coração de cada homem e mulher de boa vontade”.
A autora nasceu a 17 de Outubro de 1975 em Azurém, Guimarães.
Concluiu a licenciatura em professores do ensino básico 2º ciclo na variante Português/Inglês, pelo Instituto Superior de Ciências Educativas, em 1999 e a pós graduação em Supervisão Pedagógica de Línguas Estrangeiras em 2010, pela Universidade do Minho.
Neste momento é professora do 1º ciclo no Agrupamento de Escolas Professor Carlos Teixeira.
A apresentação da obra está a cargo de Emília Almeida que, no prefácio, refere que, “com recurso a uma linguagem textual leve, mas apelativa, mobilizadora de sentimentos, sentidos e emoções, a autora do conto intitulado “Tomé”, Sónia Silva, dá-nos a possibilidade, através da leitura do seu texto, de abrirmos o nosso entendimento à infinita torrente de sensações e múltiplas dimensões da componente psicológica da vida interior de uma criança”.
Emília Almeida considera o livro de estreia de Sónia Silva “autêntico hino de amor, modelo de confiança, singelo exemplo de respeito, e genuíno testemunho de carinho e simbólico ato de celebração condigna da dignidade que deve enformar o coração de cada homem e mulher de boa vontade”.
A autora nasceu a 17 de Outubro de 1975 em Azurém, Guimarães.
Concluiu a licenciatura em professores do ensino básico 2º ciclo na variante Português/Inglês, pelo Instituto Superior de Ciências Educativas, em 1999 e a pós graduação em Supervisão Pedagógica de Línguas Estrangeiras em 2010, pela Universidade do Minho.
Neste momento é professora do 1º ciclo no Agrupamento de Escolas Professor Carlos Teixeira.
Este é o seu primeiro conto infantil.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Lançado sítio Internet para quem procura uma carreira internacional
Quem procura uma carreira internacional tem, a partir de 20 de junho, a vida facilitada.
O Centro de Informação Europeia Jacques Delors lança, neste dia, “Carreiras internacionais” (www.carreirasinternacionais.eu), o sítio Internet que divulga oportunidades de emprego e estágio na União Europeia, Conselho da Europa e Nações Unidas.
As ofertas dirigem-se a todos os cidadãos que procuram uma carreira internacional, desde aqueles que estão à procura do primeiro emprego até aos que já tem experiência profissional. Diariamente estão disponíveis mais de 120 oportunidades de emprego. Associado ao sítio é prestado atendimento, para esclarecimento de dúvidas e encaminhamento de questões, assente nos canais: telefone e e-mail.
Fonte: Carreiras internacionais
terça-feira, 5 de junho de 2012
BiblioAnimação de junho
A Biblioteca Municipal de Fafe, local de acesso livre à informação, é um agente essencial para a promoção educativa, cultural e da tradição oral junto da comunidade envolvente.
O serviço de animação e difusão da leitura da BMF é dinamizado, mensalmente, pela sua equipa de Animação, um programa de atividades que assenta fundamentalmente na hora do conto, procurando valorizar o património literário, a memória e imaginação que a humanidade nos legou.
Proporcionar momentos de magia, de alegria e felicidade às crianças que assistem à Hora do Conto, continua a ser o grande desafio para a equipa de Animação.
Participe.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Bullying Não - recursos digitais
Bullying Não
Publicação digital realizada no âmbito do Projecto Bullying NÃO, da responsabilidade do Serviço de Documentação do Centro de Estudos, Documentação e Informação do Instituto de Apoio à Criança, que conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.
O objetivo desta publicação foi tratar o tema da violência escolar entre pares sob a forma de bullying e cyberbullying.
Publicação digital realizada no âmbito do Projecto Bullying NÃO, da responsabilidade do Serviço de Documentação do Centro de Estudos, Documentação e Informação do Instituto de Apoio à Criança, que conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.
O objetivo desta publicação foi tratar o tema da violência escolar entre pares sob a forma de bullying e cyberbullying.
Consulte.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
LIVRO DESAFECTOS AO ESTADO NOVO (3ª EDIÇÃO): APRESENTADO ESTA SEXTA-FEIRA NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE FAFE
A obra Desafectos ao Estado Novo – Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe, de Artur Ferreira Coimbra, na sua 3ª edição, revista e aumentada, vai ser apresentada ao público esta sexta-feira, 11 de maio, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Fafe.
Inicialmente publicada em 2003, por iniciativa da Junta de Freguesia de Fafe e com segunda edição no ano imediato, a obra Desafectos ao Estado Novo – Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe inclui nesta edição alguns acrescentos a nível de texto e de imagem, que a enriquecem relativamente às anteriores.
Para o autor, “não deixa de constituir uma enorme alegria, porquanto é o seu primeiro livro a atingir este patamar, fruto certamente da procura e da divulgação e expansão que tem tido ao longo dos últimos anos, não apenas em Fafe, mas um pouco pelo país, para onde foi sendo enviada pela autarquia. Honra-me de sobremaneira ter este livro referenciado na bibliografia de obras de ilustres investigadores do Portugal do século XX, como José Pacheco Pereira e Irene Flunser Pimentel”.
O objetivo fundamental da obra é relatar alguns episódios do que foi a resistência ao fascismo em Fafe, entre 1926 e 1974, em função das fontes documentais e dos testemunhos orais que foi possível reunir, num encontro promovido pelo autor com dezenas de antifascistas há duas décadas.
Com a devida contextualização como base no ambiente que se vivia a nível nacional e que foi recolhido na consulta de obras de referência historiográfica, foram passados em revista, cronologicamente e com a maior objetividade possível, o que foram esses anos, a partir das primeiras manifestações da resistência à Ditadura Militar, em fevereiro de 1927, em que participaram militares fafenses, como o Major Miguel Ferreira, António Saldanha e o Tenente José Campos de Carvalho, até às últimas eleições do regime fascista, realizadas em 1969, sob a vigência de Marcelo Caetano.
Nos anos 30, destacam-se as primeiras levas de presos políticos em Fafe, sobretudo a partir de 1936, avultando ainda o combate político do jornalista José Manuel Teixeira e Castro para prosseguir o seu trabalho contra a censura e em defesa dos seus jornais.
Já na década seguinte, aborda-se a problemática do MUDJuvenil em Fafe, fala-se da famosa luta pelo pão, do encerramento político do Externato de Fafe na Rua Montenegro (1948), após duas décadas de funcionamento e das manifestações de apoio à candidatura do General Norton de Matos à presidência da República (1949). Lugar ainda para a evocação de uma experiência deveras interessante que foi a de uma biblioteca clandestina e de uma cooperativa de pedreiros nos finais dos anos 40.
Nos anos 50, avulta o assassínio pela PIDE do fafense Joaquim Lemos Oliveira, “Repas”, a vítima maior do regime deposto em 25 de Abril. Fala-se ainda da grande homenagem distrital ao Major Miguel Ferreira, das eleições presidenciais de 1958, em que participou o General Humberto Delgado e, finalmente, do documento cujo primeiro subscritor era o Major Miguel Ferreira e que afrontava diretamente Salazar, desafiando-o o demitir-se.
Nos anos 60/70, já no declínio do regime, avultam a guerra colonial, a emigração e as eleições de 1969.
Esta obra tem ainda lugar para a evocação do lápis azul da censura e os seus reflexos no jornal local O Desforço, bem como para a recordação de diversos rostos que foram tecendo a longa e corajosa teia da resistência ao fascismo em Fafe.
Uma palavra ainda para os míticos espaços onde a oposição mais se exerceu, como a Fábrica do Ferro, o Café Avenida, o Teatro-Cinema e a casa do Major Miguel Ferreira, em Antime.
Finalmente, alguns textos sobre a resistência e a emergência do 25 de Abril, no país, como em Fafe.
A obra inclui ainda testemunhos, depoimentos e artigos do Professor Emídio Guerreiro, Francisco Oliveira Alves, António Teixeira e Castro, Parcídio Summavielle, Domingos Gonçalves, Paula Nogueira e João Baptista Alves da Mota.
A obra é desde o início a homenagem do autor, como assumido “filho de Abril”, àqueles fafenses de outrora que sacrificaram as suas vidas, os seus bens, a sua família, os seus trabalhos, a sua liberdade, ao serviço do bem comum, de um país melhor e mais respirável e que culminaria, no dia 25 de Abril de 1974, com a restauração da liberdade e da democracia em Portugal!
Inicialmente publicada em 2003, por iniciativa da Junta de Freguesia de Fafe e com segunda edição no ano imediato, a obra Desafectos ao Estado Novo – Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe inclui nesta edição alguns acrescentos a nível de texto e de imagem, que a enriquecem relativamente às anteriores.
Para o autor, “não deixa de constituir uma enorme alegria, porquanto é o seu primeiro livro a atingir este patamar, fruto certamente da procura e da divulgação e expansão que tem tido ao longo dos últimos anos, não apenas em Fafe, mas um pouco pelo país, para onde foi sendo enviada pela autarquia. Honra-me de sobremaneira ter este livro referenciado na bibliografia de obras de ilustres investigadores do Portugal do século XX, como José Pacheco Pereira e Irene Flunser Pimentel”.
O objetivo fundamental da obra é relatar alguns episódios do que foi a resistência ao fascismo em Fafe, entre 1926 e 1974, em função das fontes documentais e dos testemunhos orais que foi possível reunir, num encontro promovido pelo autor com dezenas de antifascistas há duas décadas.
Com a devida contextualização como base no ambiente que se vivia a nível nacional e que foi recolhido na consulta de obras de referência historiográfica, foram passados em revista, cronologicamente e com a maior objetividade possível, o que foram esses anos, a partir das primeiras manifestações da resistência à Ditadura Militar, em fevereiro de 1927, em que participaram militares fafenses, como o Major Miguel Ferreira, António Saldanha e o Tenente José Campos de Carvalho, até às últimas eleições do regime fascista, realizadas em 1969, sob a vigência de Marcelo Caetano.
Nos anos 30, destacam-se as primeiras levas de presos políticos em Fafe, sobretudo a partir de 1936, avultando ainda o combate político do jornalista José Manuel Teixeira e Castro para prosseguir o seu trabalho contra a censura e em defesa dos seus jornais.
Já na década seguinte, aborda-se a problemática do MUDJuvenil em Fafe, fala-se da famosa luta pelo pão, do encerramento político do Externato de Fafe na Rua Montenegro (1948), após duas décadas de funcionamento e das manifestações de apoio à candidatura do General Norton de Matos à presidência da República (1949). Lugar ainda para a evocação de uma experiência deveras interessante que foi a de uma biblioteca clandestina e de uma cooperativa de pedreiros nos finais dos anos 40.
Nos anos 50, avulta o assassínio pela PIDE do fafense Joaquim Lemos Oliveira, “Repas”, a vítima maior do regime deposto em 25 de Abril. Fala-se ainda da grande homenagem distrital ao Major Miguel Ferreira, das eleições presidenciais de 1958, em que participou o General Humberto Delgado e, finalmente, do documento cujo primeiro subscritor era o Major Miguel Ferreira e que afrontava diretamente Salazar, desafiando-o o demitir-se.
Nos anos 60/70, já no declínio do regime, avultam a guerra colonial, a emigração e as eleições de 1969.
Esta obra tem ainda lugar para a evocação do lápis azul da censura e os seus reflexos no jornal local O Desforço, bem como para a recordação de diversos rostos que foram tecendo a longa e corajosa teia da resistência ao fascismo em Fafe.
Uma palavra ainda para os míticos espaços onde a oposição mais se exerceu, como a Fábrica do Ferro, o Café Avenida, o Teatro-Cinema e a casa do Major Miguel Ferreira, em Antime.
Finalmente, alguns textos sobre a resistência e a emergência do 25 de Abril, no país, como em Fafe.
A obra inclui ainda testemunhos, depoimentos e artigos do Professor Emídio Guerreiro, Francisco Oliveira Alves, António Teixeira e Castro, Parcídio Summavielle, Domingos Gonçalves, Paula Nogueira e João Baptista Alves da Mota.
A obra é desde o início a homenagem do autor, como assumido “filho de Abril”, àqueles fafenses de outrora que sacrificaram as suas vidas, os seus bens, a sua família, os seus trabalhos, a sua liberdade, ao serviço do bem comum, de um país melhor e mais respirável e que culminaria, no dia 25 de Abril de 1974, com a restauração da liberdade e da democracia em Portugal!
terça-feira, 8 de maio de 2012
Os livros, esses animais sem pernas...
Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão.
Quando me pediram para entrar numa sala, entrei. Não contava surpreender-me. Estávamos numa biblioteca pública e eu era capaz de imaginar com antecedência o que me queriam mostrar. A senhora que caminhava dois passos à minha frente era dona de uma voz branda, feita de boa fazenda, e dizia que se tratava da oferta de um senhor que tinha morrido. O filho tinha cumprido a vontade do pai e tinha acordado as condições com a biblioteca: quase nenhumas. A sala não era uma sala, era uma sucessão de salas. Cada uma delas estava completamente ocupada por estantes cheias. Com a mesma voz de antes, a senhora explicava-me que os livros tinham vindo nas próprias estantes onde estavam. Uma empresa de mudanças tinha-se ocupado desse serviço durante dia e meio, sem parar, meia dúzia de homens.
Eu já vi muitos livros e não contava surpreender-me mas, depois, prestei mais atenção. Enquanto ouvia a descrição do cenário em que encontraram os livros - uma casa cheia de livros, todas as paredes cheias, do chão ao tecto, prateleiras com duas fileiras de livros, pilhas de livros - foquei o meu olhar nas lombadas, nos títulos. A forma como estavam ordenados, lembrou-me a caligrafia da minha avó, uma caligrafia septuagenária, agarrada a uma perfeição talvez desnecessária, a um esforço de manter a correcção mesmo depois de estar quase tudo perdido, como se essa correcção pudesse salvar. Tratava-se de uma organização que previa a dimensão estética - o tamanho das edições, as colecções, as cores das capas - mas, também, uma vertente literária - géneros, história da literatura - e alfabética - B depois do A. Por vincos ínfimos, dava para perceber que eram livros lidos. Mas tão bem tratados, tão minuciosamente acarinhados. Ao mesmo tempo, entre prateleiras, entre salas, fui percebendo quais eram os autores que, criteriosamente, não estavam representados e quais os que tinham toda a sua obra naquelas estantes; fui percebendo quais os períodos e os temas que interessavam à pessoa que juntou todos aqueles milhares de livros.
É uma vida, repetia a senhora, é uma vida inteira. E contou que aqueles livros estavam agora à espera de serem catalogados e, a pouco e pouco, arrumados junto dos outros. Foi nesse momento que consegui distinguir com clareza o quanto estavam assustados. Olhavam para todos os lados, não conheciam o futuro que os esperava. Afinal, o eterno podia mudar com tanta facilidade, bastava um sopro. Foi nesse momento que consegui distinguir as suas vozes fininhas, a cruzarem-se no ar daquelas salas, cheiro a livros e a medo. Vestidos com roupas novas, roupas nobres e tão despreparados para as exigências de uma realidade feita de mãos e transtornos, feita de pressa real.
Muito tempo depois de sair de lá, a quilómetros de distância, voltei a pensar naqueles livros. Aquela selecção privada iria diluir-se nas prateleiras da biblioteca. O fim de uma ilusão costuma causar-me melancolia. Foi o caso. Muito provavelmente, na memória daqueles livros, o tempo que passaram nessa casa antiga, protegida, iria diluir-se também. Daqui a anos, depois de mundo e cicatrizes, ao encontrarem-se por acaso poderão nem sequer reconhecer-se. Poderão ser como aquelas pessoas que se reencontram e que não sabem se devem cumprimentar-se ou não e que, ao não fazê-lo, é como se tivessem deixado de conhecer-se.
Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas.
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